Faz parte do treinamento dos monges budistas desenhar com areia colorida, construindo delicadas e complexas mandalas no chão. E eles dedicam a esta paciente arte, passam muito tempo nela, para depois, num gesto firme e decidido, destruí-las com a mão.
Analisando precipitadamente muitos de nós podemos expressar: "Que desperdício de tempo!". Mas o fato é que existe uma sabedoria atrás desse gesto. Eles o fazem propositalmente para lembrar que na vida nada é permanente.
Aprecio muito essa comparação. Ela nos faz um convite a não dependermos de coisas ou estados emocionais para sermos felizes.
Somos seres muito especiais, únicos, com uma incrível capacidade de amar, de perdoar, de crescer, de evoluir, de aperfeiçoar-nos. Somos filhos de Deus, somos herdeiros do universo, somos viajantes na direção do infinito e da perfeição.
Mas na verdade, a única coisa que realmente temos é o momento presente, com seus inúmeros convites ao crescimento pessoal e múltiplas opções de ação, ou não-ação. É claro que as coisas que fazem parte da nossa vida são importantes e queridas, mas uma dose de desapego também pode trazer-nos um enorme benefício.
Somos herdeiros do ontem e semeadores do amanhã. Estamos escrevendo nossa própria história, o livro de nossas vidas.
Podemos mexer em nossa vida, só não podemos mexer em dois dias, o ontem e o amanhã. Ontem é passado, não existe mais, amanhã é futuro que ainda não chegou e quando chegar e você abrir os olhos, será chamado de hoje, não é mais amanhã.
Nossa mente, na fase atual de nossa existência, de nossa evolução, está contaminada pelos chamados venenos da mente, que são divididos em três categorias principais:A primeira é o apego ou desejo que inclui o ficar preso física ou mentalmente a pessoas, objetos e fenômenos.
· A segunda é a raiva que significa rejeitar, não querer, afastar algo de você.
· A terceira é a ignorância que significa não ter uma noção clara da vida, não compreender a natureza verdadeira das coisas.
Cada um destes venenos age de maneira interdependente. Ocorre que, quando não temos uma visão real da vida, acabamos criando desejos e apegos. E quando não conseguimos o que queremos, criamos aversão e ficamos com raiva.
Os venenos da mente agem como toxinas, criando energias mentais negativas. Estas energias são expressas em nossas ações, palavras e nossos pensamentos, causando um sofrimento cíclico, em cadeia, que se repete infinitamente, até que venhamos a quebrar esta situação, mudando a direção de nossa mente, de nossos passos.
Visando este objetivo, precisamos tomar consciência da realidade da impermanência em nossa vida presente. Para isto, existem inúmeros exemplos. Vamos usar um muito comum no Oriente.
| Encare sua vida como se fosse um banco no parque, em uma tarde de clima ameno. Você vai até lá passar algumas horas, sentado, aproveitando tudo ao máximo: a brisa fresca, os pássaros cantando, as borboletas, o sol batendo no rosto. Tudo aquilo dura pouco tempo e vai chegar ao fim. Por isso, você deve aproveitar o momento e criar boas condições, criar méritos. Você não se deve apegar ao banco. Não tente colocar uma etiqueta nele com o seu nome, querendo mantê-lo para você! Isso vai impedi-lo de sentir o prazer e a liberdade de estar lá, simplesmente sentado. E se alguém se sentar com você, seja gentil, tratando-a com amor e compaixão. Não brigue com esta pessoa. Seu tempo é muito curto. Vocês estão ali apenas de passagem. |
Ao lembrarmos de que tudo na vida é impermanente e chega ao fim, podemos ser generosos com ela, sabendo que provavelmente ela nunca pensa no fato de que ter de deixar o banco em breve, assim como você. Todos nós queremos manter as coisas e não o conseguimos. Temos de ter compaixão por elas e por nós mesmos. Compreender a impermanência faz-nos ricos: temos tudo neste momento e podemos ser generosos, abertos, decididos a fazer o que pudermos para beneficiar a todos com o nosso amor, sem medo de perder.
Sempre que ministramos e compartilhamos treinamentos de impermanência, meditação, controle da respiração e temas ligados ao auto-equilíbrio, surgem perguntas relativas ao karma.
"O karma é algo criado por nós E tudo o que é criado pode ser alterado"
Explicamos então que karma é uma lei do Hinduísmo a qual defende que qualquer ato, por mais insignificante, voltará ao indivíduo com igual impacto. Bom será devolvido com bom; mau com mau. Como os Hindus acreditam na reencarnação, o karma não conhece limites de vida/morte. Se o bem e o mal caem sobre si, se as pessoas se comportam de determinado modo consigo mesmas, isso se deve ao que fizeram nesta ou numa vida passada.
Acrescentamos ainda que, como somos senhores de nosso destino, é-nos plenamente possível modificar nosso karma, dependendo do nosso comportamento para o caminho do bem ou para outras direções. O karma é purificável através da educação e da meditação. O karma é algo criado por nós, e tudo o que é criado pode ser alterado. Só o que está além da criação - como a natureza absoluta da nossa mente - não pode ser alterado.
Perceber que nossa vida é impermanente é um grande tesouro, reconhecer que não irá durar para sempre neste corpo, neste estado em que estamos.
Entender a impermanência é crucial para a maturidade espiritual.
Ao contemplar a impermanência, olhe para a sua vida.
| · De onde você veio? · Onde você nasceu? · Você ainda vive lá? · Quem são as pessoas com quem você viveu? · Você ainda vive com elas? · Em que casa você viveu? · O que vem acontecendo ao seu próprio corpo? |